
É com enorme satisfação que observamos a forma como a veia literária dos nossos comentadores está cada vez mais refinada. Assim, passamos a transcrever um magnífico conto do nosso amigo e colaborador, Leonardo da Vista, que este deixou num comentário:
Era uma vez um asno que, na ressaca dumas “comidas” mal digeridas não se sentia com vontade e forças para chegar ao albergue.
Era um dia de Janeiro frio para caramba. Todos os caminhos estavam ou escorregadios ou com água gelada.
- Eu fico aqui, disse o jumento julgando deitar-se no chão.
Um parvalito esfomeado, a quem se tinha acabado a “mama”, pousou-lhe no pescoço e, com a voz que só os namorados usam, disse-lhe carinhosamente:
- Ó tu, que por aqui perambulas, perdido, a caminho do hospital. Olha que não estás deitado na borda da estrada mas sim na borda do rio. Levanta-te caminha. O Sobral Cid é já ali. Tem cuidado!
O jerico, morto de cansaço – a noite tinha sido esfalfante – abriu o corta-palha num rasgado bocejo e adormeceu.
Mas o calor do seu corpo, bem avinhagado, começou, pouco a pouco, a derreter o gelo, que a um grande estalido - ou do gelo ou da boca ou do… rabo a saracotear – se partiu. Quando deu conta de que estava já a ficar coberto pela água, o jegue acordou alarmado; mas já era demasiado tarde: além da água também o seu bolçar o engasgou.
Vai amanhã a “enterrar”. Perdão, a “internar”. À última hora, o “irmão” parvalito conseguiu “salvá-lo”.
Leonardo da Vista